"No fundo de tudo há a aleluia." (Clarice Lispector)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

"Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”


“Senhor,
.................
Dá o sopro, a aragem, -- ou a desgraça ou ânsia--,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância –
Do mar ou outra, mas
que seja nossa!”

Fernando Pessoa/ Mensagem:
Mar Português / Prece

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer
Minha alma é indistinta,
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...

Fernando Pessoa, Cancioneiro

sábado, 5 de janeiro de 2008

...e assim é...


Nós

se desnodulam
e
nos nodulam...

nós nodulamos
e
nós nodulam...
e
assim
é.

carmen cynira

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Achados Drummondianos


Achados Drummondianos


Em tom quase apaixonado
a maçã no escuro disse
que não gostar de Clarice
é pior do que pecado.

***

Esquecer: outra forma de lembrar.
É lembrar no segredo de mim mesmo
e tanto aprimorar essa lembrança
que nela viva sem mim, fluida, no ar.

(O Observador no Escritório/
Carlos Drummond de Andrade/1985Record Ed.)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

domingo, 9 de dezembro de 2007

um réquiem em sua homenagem


Visão de Clarice Lispector


Clarice

veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.

Ou o mistério não era essencial,

era Clarice viajando nele.
Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,

onde a palavra parece encontrar

sua razão de ser, e retratar o homem.


O que Clarice disse, o que Clarice

viveu por nós em forma de história

em forma de sonho de história

em forma de sonho de sonho de história

(no meio havia uma barata
ou um anjo?)

não sabemos repetir nem inventar.

São coisas, são jóias particulares de Clarice

que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.


Clarice não foi um lugar-comum,

carteira de identidade, retrato.

De Chirico a pintou? Pois sim.


O mais puro retrato de Clarice

só se pode encontrá-lo atrás da nuvem

que o avião cortou, não se percebe mais.


De Clarice guardamos gestos. Gestos,

tentativas de Clarice sair de Clarice

para ser igual a nós todos

em cortesia, cuidados, providências.

Clarice não saiu, mesmo sorrindo.

Dentro dela

o que havia de salões, escadarias,

tetos fosforescentes, longas estepes,

zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,

formava um país, o país onde Clarice

vivia, só e ardente, construindo fábulas.


Não podíamos reter Clarice em nosso chão

salpicado de compromissos. Os papéis,

os cumprimentos falavam em agora,

edições, possíveis coquetéis

à beira do abismo.

Levitando acima do abismo Clarice riscava

um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.


Fascinava-nos, apenas.

Deixamos para compreendê-la mais tarde.

Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Há 105 anos nascia o Poeta

ETERNO

A cada instante se criam novas categorias de eterno.

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o mesmo recém nascido
antes que lhe dêem nome
e que lhe comuniquem o sentido do efêmero
e o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas

ETERNO É TUDO AQUILO QUE VIVE UMA FRAÇÃO DE SEGUNDO
MAS COM TAMANHA FORÇA QUE SE PETRIFICA
E NENHUMA FORÇA O RESGATA.

( em Fazendeiro do Ar – 1954)
*****
A HORA DO CANSAÇO
...


Do sonho do eterno fica esse gosto acre
Na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

( em Corpo, 1984)